Para todos?

Educação para todos é não precisar incluir; pressupõe-se que não haja excluídos.

Se é preciso incluir é porque não é para todos.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Palavras do Presidente Oscar Arias da Costa Rica na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, 18 de abril de 2009

"ALGO HICIMOS MAL"


"Tenho a impressão de que cada vez que os países caribenhos e

latinoamericanos se reúnem com o presidente dos Estados Unidos da América,

é para pedir-lhe coisas ou para reclamar coisas. Quase sempre, é para

culpar os Estados Unidos de nossos males passados, presentes e futuros. Não

creio que isso seja de todo justo.



Não podemos esquecer que a América Latina teve universidades antes de que

os Estados Unidos criassem Harvard e William & Mary, que são as primeiras

universidades desse país. Não podemos esquecer que nesse continente, como

no mundo inteiro, pelo menos até 1750 todos os americanos eram mais ou

menos iguais: todos eram pobres.



Ao aparecer a Revolução Industrial na Inglaterra, outros países sobem nesse

vagão: Alemanha, França, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e

aqui a Revolução Industrial passou pela América Latina como um cometa, e

não nos demos conta. Certamente perdemos a oportunidade.



Há também uma diferença muito grande. Lendo a história da América Latina,

comparada com a história dos Estados Unidos, compreende-se que a América

Latina não teve um John Winthrop espanhol, nem português, que viesse com a

Bíblia em sua mão disposto a construir uma Cidade sobre uma Colina, uma

cidade que brilhasse, como foi a pretensão dos peregrinos que chegaram aos

Estados Unidos.



Faz 50 anos, o México era mais rico que Portugal. Em 1950, um país como o

Brasil tinha uma renda per capita mais elevada que o da Coréia do Sul. Faz

60 anos, Honduras tinha mais riqueza per capita que Cingapura, e hoje

Cingapura em questão de 35 a 40 anos é um país com $40.000 de renda anual

por habitante. Bem, algo nós fizemos mal, os latinoamericanos.



Que fizemos errado? Nem posso enumerar todas as coisas que fizemos mal.

Para começar, temos uma escolaridade de 7 anos. Essa é a escolaridade média

da América Latina e não é o caso da maioria dos países asiáticos.

Certamente não é o caso de países como Estados Unidos e Canadá, com a

melhor educação do mundo, similar a dos europeus. De cada 10 estudantes que

ingressam no nível secundário na América Latina, em alguns países, só um

termina esse nível secundário. Há países que têm uma mortalidade infantil

de 50 crianças por cada mil, quando a média nos países asiáticos mais

avançados é de 8, 9 ou 10.



Nós temos países onde a carga tributária é de 12% do produto interno bruto

e não é responsabilidade de ninguém, exceto nossa, que não cobremos

dinheiro das pessoas mais ricas dos nossos países. Ninguém tem a culpa

disso, a não ser nós mesmos.





Em 1950, cada cidadão norteamericano era quatro vezes mais rico que um

cidadão latinoamericano. Hoje em dia, um cidadão norteamericano é 10 15 ou

20 vezes mais rico que um latinoamericano. Isso não é culpa dos Estados

Unidos, é culpa nossa.



No meu pronunciamento desta manhã, me referi a um fato que para mim é

grotesco e que somente demonstra que o sistema de valores do século XX, que

parece ser o que estamos pondo em prática também no século XXI, é um

sistema de valores equivocado. Porque não pode ser que o mundo rico dedique

100.000 milhões de dólares para aliviar a pobreza dos 80% da população do

mundo "num planeta que tem 2.500 milhões de seres humanos com uma renda de

$2 por dia" e que gaste 13 vezes mais ($1.300.000.000.000) em armas e

soldados.



*Como disse esta manhã, não pode ser que a América Latina gaste $50.000*

milhões em armas e soldados. Eu me pergunto: quem é o nosso inimigo? Nosso

inimigo, presidente Correa, desta desigualdade que o Sr. aponta com muita

razão, é a falta de educação; é o analfabetismo; é que não gastamos na

saúde de nosso povo; que não criamos a infraestrutura necessária, os

caminhos, as estradas, os portos, os aeroportos; que não estamos dedicando

os recursos necessários para deter a degradação do meio ambiente; é a

desigualdade que temos que nos envergonhar realmente; é produto, entre

muitas outras coisas, certamente, de que não estamos educando nossos filhos

e nossas filhas.



Vá alguém a uma universidade latinoamericana e parece no entanto que

estamos nos sessenta, setenta ou oitenta. Parece que nos esquecemos de que

em 9 de novembro de 1989 aconteceu algo de muito importante, ao cair o Muro

de Berlim, e que o mundo mudou. Temos que aceitar que este é um mundo

diferente, e nisso francamente penso que os acadêmicos, que toda gente

pensante, que todos os economistas, que todos os historiadores, quase

concordam que o século XXI é um século dos asiáticos não dos

latinoamericanos. E eu, lamentavelmente, concordo com eles. Porque enquanto

nós continuamos discutindo sobre ideologias, continuamos discutindo sobre

todos os "ismos" (qual é o melhor? capitalismo, socialismo, comunismo,

liberalismo, neoliberalismo, socialcristianismo...) os asiáticos

encontraram um "ismo" muito realista para o século XXI e o final do século

XX, que é o *pragmatismo*. Para só citar um exemplo, recordemos que quando

Deng Xiaoping visitou Cingapura e a Coréia do Sul, depois de ter-se dado

conta de que seus próprios vizinhos estavam enriquecendo de uma maneira

muito acelerada, regressou a Pequim e disse aos velhos camaradas maoístas

que o haviam acompanhado na Grande Marcha: "Bem, a verdade, queridos

camaradas, é que a mim não importa se o gato é branco ou negro, só o que me

interessa é que cace ratos". E se Mao estivesse vivo, teria morrido de novo

quando disse que "a verdade é que enriquecer é glorioso". E enquanto os

chineses fazem isso, e desde 1979 até hoje crescem a 11%, 12% ou 13%, e

tiraram 300 milhões de habitantes da pobreza, nós continuamos discutindo

sobre ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo atrás.



A boa notícia é que isto Deng Xiaoping o conseguiu quando tinha 74 anos.

Olhando em volta, queridos presidentes, não vejo ninguém que esteja perto

dos 74 anos. Por isso só lhes peço que não esperemos completá-los para

fazer as mudanças que temos que fazer.



Muchas gracias."

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